PREVENÇÃO DE ACIDENTES NA INFÂNCIA

Os acidentes e a violência são hoje os maiores inimigos da criança. As vacinações e a evolução da ciência conseguiram controlar a maior parte das doenças produzidas por vírus, bactérias e outros micro-organismos. Por outro lado, os acidentes de trânsito, as quedas, afogamentos, queimaduras e intoxicações vêm se juntar à violência que existe até mesmo dentro das casas (casos de polícia), fazendo com que muitas crianças percam a vida ou sofram danos às vezes muito sérios. Prevenir esses acidentes é preocupação constante do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Na primavera e já com a proximidade do verão, quando se intensificam os lazeres ao ar livre, e esses exercícios e brinquedos são muito sadios e recomendados, começamos a pensar nos perigos para a criança de uma demorada exposição ao sol, com a desidratação e as conseqüentes queimaduras na pele com risco de câncer em longo prazo, não se podendo esquecer do possível contato da criança com superfícies aquecidas pelo sol, como asfalto, calçadas, portas de carros, areia com temperaturas elevadas, onde as crianças podem pisar ou tocar, sofrendo queimaduras até graves. As crianças devem ficar à sombra nos dias mais quentes. Devem usar bonés, roupas leves, calçados para proteger os pés dos raios do sol e do calor.

Além dos acidentes de trânsito e da violência urbana que já vitimam tantas crianças, um fator importante para eventos trágicos, incapacitantes e às vezes fatais para a criança são os acidentes domésticos. O lar, que deveria ser um local de tranqüilidade para as crianças, pode até tornar-se, por descuido dos pais e parentes próximos, um palco de acidentes:

Quedas

Ferimentos

Queimaduras

Choques elétricos

Afogamentos

Asfixias

Envenenamentos

A maior parte desses acidentes acontecem quando o responsável pela criança está distraído, atendendo um telefonema, fazendo uma breve leitura, indo a outra dependência da casa buscar alguma coisa, às vezes em questão de minutos. Crianças de menos de três anos, então, devem ser permanentemente vigiadas. É a época em que a criança está curiosa em descobrir as coisas... Antes das refeições, quando com fome, a baixa da glicose no sangue pode deixar a criança mais distraída que o normal e muitos acidentes acontecem nessas ocasiões. Vamos fazer algumas observações e perguntas sobre segurança na área em que a criança vai brincar.

1. Existem objetos pequenos que a criança, principalmente as de menos de três anos, possam engolir e obstruir sua laringe?

2. Existem objetos maiores com partes menores destacáveis, ou pesados o bastante para caírem sobre a criança e produzirem traumas graves?

3. Existem sacos plásticos com que a criança possa envolver a cabeça e sufocá-la, ou balões infláveis que foram idealizados para divertir a criança, mas que sem a necessária vigilância dos pais podem produzir sufocação?

4. Existem gavetas que possam ser abertas e onde toda sorte de objetos possam ser encontrados?

5. Existem objetos pontiagudos ou com corte que possam ferir crianças?

6. Existem produtos químicos tais como: produtos de higiene, limpeza, inseticidas, e mesmo medicamentos deixados ao alcance da criança e às vezes ingenuamente guardados em frascos de refrigerantes, despertando o seu interesse? Alguns pais chegam a chamar remédios de "docinhos" para melhor aceitação da criança.

7. O ferro de passar roupa aquecido pode ser um risco de queimaduras. As panelas no fogão devem ser mantidas com os cabos voltados para a parede para evitar que as crianças entornem o seu conteúdo.

7. Escadas internas devem ser fechadas com portões, principalmente na presença de crianças menores.

8. As tomadas são objetos da curiosidade das crianças que enfiam nelas o seu dedinho. Proteger sempre esses equipamentos.

9. As bicicletas só devem ser usadas em idades maiores e lugares adequados, nunca em uma via pública. Sendo veículos que podem atingir até 70 km/hora, sujeitos a acidentes com possibilidade de traumas, há países que aconselham idade mínima de 12 anos e capacetes para essas crianças. Os patins e os patinetes, então, envolvem riscos ainda maiores que os da bicicleta. É muito agradável ver os filhos se liberarem em práticas esportivas, mas são necessários a vigilância de um treinador e equipamentos adequados.

10. A natação, sem a vigilância de um adulto pode se tornar muito perigosa. Cursos de natação dão às vezes impressão de falsa segurança, aumentando a ousadia das crianças. A observação dos pais ou de um treinador são sempre indispensáveis.

11. Hoje os berços geralmente são construídos com cuidados exigidos pelo INMETRO, assim devem-se recusar os berços que escapem a essas especificações, berços onde a criança possa prender sua cabeça ou subir as grades, caindo ao chão.

12. Os alimentos das crianças devem ser bem escolhidos e guardados com todo o cuidado para não se deteriorarem. Devem ser adequados à idade. Nem tudo o que o adulto come a criança precisa experimentar.

13. Ninguém é contra a presença de animais domésticos na casa, ou em suas imediações, mas cuidados especiais devem cercar esses "amigos do homem", para que sejam vacinados, isentos de doenças, e, principalmente dóceis, pois, mesmo assim, as crianças menores precisam, como em todos os outros casos, de vigilância constante, já que elas na sua ingenuidade podem provocar esses animais, puxando-lhes o rabo, as orelhas e não podemos imaginar qual a reação do bichinho... Minha experiência de 8 anos em pronto socorro infantil mostrou-me crianças com ferimentos de leves a gravíssimos, produzidos por cães chamados de "mansos" pelos pais. Note-se que até os cães pitt-bull são considerados dóceis pelos seus criadores, mesmo depois de terem provocado a morte de crianças! Não podemos ser condescendentes com vizinhos que mantém cães ferozes insuficientemente cercados.

Quisemos dar uma noção geral dos perigos que cercam os inocentes folguedos infantis. É claro que tudo o que aqui foi escrito não engloba a totalidade dos riscos que rondam o lar da criança, mas são indicações dos cuidados que devemos ter com o ambiente em que a criança vive e brinca. O assunto é amplo e o bom senso dos pais e a orientação do pediatra certamente levarão a outros cuidados na prevenção desses acidentes.

José M. X. Mendonça – Pediatra.